UVA: Os riscos da internet para os jovens

Segundo pesquisa da Avast, crianças e adolescentes podem estar sujeitas a conteúdos sensíveis e a exposições na internet. Em uma reportagem de Bruno De Blasi, pais e jovens dão seus relatos com a ajuda de especialistas.

A internet é um espaço em que tudo é possível. Tendo os jovens como a maior parte dos usuários, totalizando 41,1% dos brasileiros, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2015 (PNAD), nela pode-se encontrar momentos de lazer e informação, o que agrega bastante a formação de crianças e adolescentes. É por isso que, para alguns pais, como a fotógrafa Wania Corredo, de 49 anos, que tem uma filha de 14 anos, o acesso à internet pode ser vantajoso, proporcionando experiências produtivas.

– Eu sou uma mulher que adora modernidade. Para mim, ela é positiva. Ela garante facilidade de informação e tem a questão da globalização, que proporciona informações dinâmicas para os jovens sobre o mundo todo – relata.

Ao mesmo tempo em que as vantagens estão explícitas, os riscos seguem na mesma direção. Em uma pesquisa realizada em julho deste ano com 1.800 pais brasileiros pela empresa de segurança Avast, enquanto uma em cada cinco crianças já teve contato com conteúdos violentos, duas em cada cinco crianças já acessaram conteúdos adultos.

Pai de Miguel, de 7 anos, que utiliza a internet para jogar e assistir vídeos, o analista de sistemas Marcus Barreira, de 36 anos, se preocupa bastante com a visualização de ambos os tipos de conteúdo. Para ele, há um pouco mais de desconforto quando se trata de cenas violentas:

– Conteúdo de violência eu acho muito “barra pesada” para criança, porque nudez, sexo em si, é pesado, mas o pior mesmo é a violência. A situação de ver certas cenas, pessoas brigando, atirando no outro, entre outros, são mais pesadas.

Ainda que esta seja sua maior preocupação, foi por uma rede social que presenciou um episódio inusitado. Pelo WhatsApp do filho, uma pessoa desconhecida começou a enviar mensagens “meio estranhas”, dizendo “estou te gastando” e “estou te zoando”. Quando Marcus questionou quem era a pessoa, ela respondia “é o capeta”, trazendo algumas desconfianças em relação ao uso do aplicativo.

Longe do conteúdo sexual e da violência, a quantidade quase infinita de informações também pode ser um dos lados ruins da internet, sendo capaz de proporcionar experiências indevidas. Esta abundância pode ser prejudicial, causando exposições inusitadas e atrapalhando a formação do jovem.

– O volume de informações é muito grande. Você cai em armadilhas se você não for a lugares oficiais, se expondo demais. É um universo grandioso, que tem várias armadilhas e que pode ser arriscado – explica Wania Corredo.

É no meio das interações virtuais que podem estar as maiores desavenças para os adolescentes. A estudante Isabella Cabral, de 16 anos, já teve de lidar com o bullying e com discussões pela internet, há alguns anos atrás, o que afetou o seu meio social. Entretanto, ela diz que, com o tempo, estas situações não voltaram mais a acontecer.

– Na época foi bem ruim, muitas pessoas deixaram de falar comigo e como eu era mais nova, me senti péssima, com pouquíssimos amigos, mas o tempo foi passando e isso foi ficando para trás e não voltou a acontecer – relata.

Também estudante, Hanna Miranda, de 17 anos, é outra adolescente que relata situações de bullying. Pelo Twitter, colegas da escola passaram a comentar “coisas bem cruéis”, além de passar por discussões pelo Facebook. Isto lhe trouxe uma situação bem desconfortável, não somente a ela, mas também aos seus pais, sendo necessário até trocar de escola.

Especialistas indicam os riscos e meios para um acesso seguro e consciente

Situações como estas podem causar riscos e prejuízos, como traumas, fobias e até distúrbios, de acordo com a psicóloga Samantha Castro, pois há situações que acabam marcando os jovens de uma forma tão intensa que pode levar tempo para reduzir os danos. Sendo um espaço diversificado que traz ambos os lados bons e ruins, é complicado apontar o que é positivo ou negativo na internet, ainda mais quando cada indivíduo reage de um jeito diferente.

– Mesmo os conteúdos tidos como negativos podem auxiliar no crescimento pessoal. Dessa forma, fica muito complicado dizer o que é de fato negativo. Todos são indivíduos diferentes. Entretanto, acredito que pornografia, assim como o excesso de exposição à falsa felicidade das redes sociais pode prejudicar bastante – explica.

Ainda que estas experiências negativas possam existir, a psicóloga acredita que o controle excessivo não é a melhor opção, sendo a conversa um dos melhores caminhos para se educar e manter o jovem consciente dos riscos. Especialista em segurança da informação, Alexandre Knoploch explica que os pais devem sempre manter constante vigilância e diálogo:

– A forma de os pais estarem preparados é terem percepção da maturidade dos filhos. Pode-se usar controles, mas você só estará bloqueando aquele dispositivo, tendo outros acessíveis.

É dessa maneira que Wania Corredo evita incidentes. Estando sempre em diálogo com a filha e ensinando a utilizar as ferramentas disponíveis na internet, ela preza pela liberdade dos jovens, pois é algo importante para a formação. Assim, uma das lições dadas à filha é sempre se manter reservada, impedindo exposições desnecessárias.

– Ela acessa 24h tudo o que quiser, mas sempre orientei a nunca se expor.

As jovens Isabella e Hanna relatam que, embora, atualmente, haja mais liberdade e confiança dos pais em relação ao uso da internet, antes, o controle era maior. Ainda assim, os pais de Isabella, vez ou outra, conversam com a filha, para que ela esteja consciente do seu uso e protegida:

– Há alguns anos era mais controlado, mas agora eles confiam em mim para usar com sabedoria e mantendo o que eles me ensinaram, mas vez ou outra, rola alguma conversa sobre evitar exposição e tomar cuidado com os conteúdos.

Aplicativos podem auxiliar no controle 

Embora o diálogo seja importante, Alexandre Knoploch indica outros meios de proteção, uma vez que o acesso a sites e e-mails suspeitos pode ser prejudicial e até permitir que os jovens façam compras com preços fora da realidade. A pesquisa da Avast também aponta para o fato de que um em cada cinco pais possui algum aplicativo de monitoramento no smartphone para controlar o uso das crianças, o que dificulta a supervisão dos conteúdos acessados pelos filhos.

Para evitar este tipo de problema, tanto a pesquisa, quanto Alexandre Knoploch, indicam a instalação de softwares que possam controlar o acesso e manter a segurança, como, por exemplo, um antivírus.

Marcos Barreira, que também é analista de sistemas e possui experiência com sistemas de classificação etária, chama a atenção para o uso desse tipo de ferramenta para evitar que o filho Miguel acesse conteúdos indevidos. Dessa maneira, ele assiste apenas aquilo que está filtrado para a sua idade, embora nem sempre haja precisão na indicação.

– O Miguel tem um aplicativo que tentei burlar para colocar a idade mais para cima para ele poder jogar Minecraft, um jogo em que não vejo problema algum. Só que é um jogo que precisei burlar para ele poder jogar, então, a classificação precisava estar de acordo com o jogo, assim como os aplicativos. Eu coloquei lá que essa criança tem 7 anos, então precisa existir conteúdo próprio para ele. Acho que deveria ter um filtro – questiona.

Ainda segundo a pesquisa, além do baixo número de pais que possuem aplicativos de controle instalados em seus smartphones, um terço dos entrevistados não sabia da existência desse tipo de serviço e outro terço acredita que os filhos eliminariam o aplicativo caso fossem encontrados em seus smartphones.

Ciente dessa realidade, Alexandre Knoploch orienta que os pais utilizem uma autenticação por senha, e até mesmo um duplo fator de autenticação, para evitar que os jovens burlem o sistema de segurança. Dessa maneira, o acesso pode ser monitorado pelos pais, e, consequentemente, mais seguro.

Para infográfico

Quantidade de pais entrevistados: 1.800 brasileiros

Apuração: Avast, julho de 2017

Acessou um site ou aplicativo que continha malware:

  • 32% de 3-6 anos
  • 21% de 7-10 anos
  • 17% de 11-14 anos

Acessou um site ou aplicativo que continha conteúdo adulto

  • 50% de 3-6 anos
  • 48% de 7-10 anos
  • 69% de 11-14 anos

Acessou um site ou aplicativo que mostrou ou promoveu violência

  • 47% de 3-6 anos
  • 43% de 7-10 anos
  • 25% de 11-14 anos

Reportagem feita para disciplina Proj. Interdisciplinar – Impressos, em 2017.2, da Universidade Veiga de Almeida.