Vinte&Um: 50 anos felizes e infelizes de Túnel Rebouças

Inaugurado em 1967, o Túnel Rebouças facilita o trânsito, mas é, com o elevado, “conjunto da obra”, um dos marcos mais infelizes da história do Rio de Janeiro

Hoje, o Tunel Rebouças comemora 50 anos. A data sinaliza meio século de existência de um dos principais meios de acesso entre as Zonas Norte e Sul do Rio de Janeiro. Construído entre o Rio Comprido e a região da Lagoa, com uma saída para o Cosme Velho, é um bom caminho para os motoristas, mas, ao mesmo tempo, ele é, também, uma metáfora para a desigualdade, separando o subúrbio dos metros quadrados mais caros da cidade. Isso sem contar os demais problemas.

Com as obras iniciadas pelo ex-governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, em 1962, e inaugurado pelo também ex-governador Francisco Negrão de Lima, em 1967, sua comemoração é inevitável. Em até menos de dez minutos, em uma só reta, é capaz de se trafegar um caminho que levaria meia hora. Graças ao Elevado Engenheiro Freyssinet, acima da Avenida Paulo de Frontin — e popularmente conhecido pelo nome dela — , os motivos são simples: com acessos ao Rio Comprido, pela avenida, e Praça da Bandeira, Avenida Brasil e Linha Vermelha, pelo elevado, o motorista tem acessos às principais vias expressas da cidade. Entretanto, o que era para ser uma obra e tanto, é, além de uma metáfora sádica para a cidade, um símbolo do descuido e da falta de planejamento urbano, uma doença que esta capital enfrenta desde o seu surgimento. E tudo isso por causa de um elevado.

É possível se agradar com as facilidades que o Túnel Rebouças trouxe, entretanto, quando se trata dos males, é quase impossível resumi-los. É com ele que, na Avenida Paulo de Frontin, uma rua ilustre, cheia de apartamentos antigos construídos em concreto armado, antigo lar de figuras importantes e até cenário de um livro de Machado de Assis e de telas de Debret, um grande elevado entre prédios, assimilando ao Minhocão, em São Paulo, foi erguido. O resultado disso é um bairro cinza, violento e, diferente da capital paulista, temido por grande parte da população do Rio.

Ex-morador da região, convivi com histórias tristes acerca do elevado que liga o túnel. Além do descaso da Secretaria Municipal de Obras e Conservação, por conta de desgastes na estrutura do elevado e falta de manutenção em calçadas e asfalto, a Avenida Paulo de Frontin é onde a desatensão pode resultar em assaltos. Além disso, resta espaço para os reflexos sociais na região: envolvendo bairros vizinhos, como Catumbi, Estácio e Praça da Bandeira, a quantidade de comunidades tomadas pelo tráfico com longos históricos de tiroteios são frequentes na região. E isto é apenas a ponta do iceberg.

Não à toa, me mudei da região por isso. No ano passado, quando eu estava em casa, no quarto, um disparo de arma me assustou. Entretanto, foi o barulho que veio da sala de estar que me deixou mais alarmado. Uma bala adentrou o meu apartamento, pela janela, quebrando parte do meu vidro. Por sorte, ela seguiu uma linha reta e não atingiu a minha televisão. Mas era virar um pouco para a esquerda e ir acerta em cheio, podendo até alcançar alguém no sofá.

Todo este legado do século passado precisa ficar para trás, como aconteceu no Centro. Com a queda da Perimetral, no Centro do Rio, não só resgatamos a alma e a vida de uma das regiões mais históricas da região, como, também, aliviou os índices de assalto e deu outra cara à região. Por conta disso, temos, atualmente, a Praça Mauá como um ponto turístico e não mais um lugar a ser evitado. Em tempos onde o discurso da Prefeitura é justamente a restauração da história, a revitalização da cidade, por que este não foi o mesmo destino do Elevado Paulo de Frontin, no Rio Comprido, e da Linha Vermelha, em São Cristóvão?

A mesma situação deveria estar acontecendo, também, no Estácio, Rio Comprido e Catumbi, bairros com enorme relevância histórica e cultural para a cidade. É preciso trazer a vida de volta à região, dar fim ao elevado e repensar os meios de mobilidade urbana.

Assim como no Centro, este pode ser o pontapé inicial para um projeto de mudança urbana não somente para as ruas do elevado, no entorno e nas comunidades. Com isso, ao invés de estarmos comemorando os 50 anos do Túnel Rebouças, éramos para estar dando graças à Deus ao fim do Elevado Paulo de Frontin. Mas, infelizmente, esta não é a nossa realidade.

Bruno De Blasi é editor da Vinte&Um e estudante de Jornalismo.

Publicado originalmente na revista Vinte&Um