Vinte&Um: Você se preocupa com os seus dados?

A internet pode saber tudo sobre nós sem que a gente nem perceba

Com mais segurança e mais privacidade, o navegador do macOS, o Safari 11, trouxe algumas insatisfações. Limitando o acesso aos dados dos usuários, os anunciantes não gostaram nada disso, ao ponto de questionarem e pedirem para a Apple retirar este recurso. A companhia se negou e a internet se manteve um pouco mais privada e segura. Mas até que ponto os usuários sabem que esta é uma mudança significativa na vida deles?

Desde que a internet é internet, o grande debate está em como lucrar e como fazer isso da melhor maneira possível. Nos tempos da conexão discada, por exemplo, já cheguei a pagar por um provedor de email. Hoje, a onda do “grátis” se alastra pelas redes. Tudo acaba sendo sustentado por anúncios, que não somente incomodam os nossos olhos: de certa maneira, eles são invasivos sem que a gente nem veja e perceba.

Embora não esteja nos principais tópicos do senso comum, esta é a realidade atual. Em “Everybody Lies”, Seth Stephens-Davidowitz nos mostra como os computadores sabem mais das nossas vidas do que nós mesmos, pelo simples fato de que os dados registrados pela nossa utilização podem não bater com o que apresentamos. É nessa leva que os Cookies, recurso dos navegadores e o que a Apple restringiu nativamente para sites e anunciantes, podem falar por nós, expondo todos os nossos podres.

Nem precisou ser disponibilizado ao público e já houve reclamações do Safari 11 pelas limitações impostas. Tudo porque, podendo facilitar a nossa vida para trazer uma experiência de navegação compatível com os nossos dispositivos, os Cookies também são capazes de armazenar e transmitir dados preciosos. São eles sites acessados, localização geográfica, entre outros, o que permite anúncios e conteúdos direcionados aos gostos e para o que os usuários procuram na internet — o que parece ser bom, mas não é, visto que a sua privacidade é posta em jogo por este fim. Uma vez restringidos, as empresas são limitadas, também. O problema é que este não é o único meio de saber sobre nós.

Uma pergunta, então, deve ser feita: desde quando você paga para ter email? Quanto você paga para pesquisar no Google? E quanto você acha que eles gastam, por mês, para manter os serviços? Claro que, para deixar tudo no ar, são bilhões de dólares por mês, mas para você, a conta não chega. Então como é que este império está como está?

Para prover serviços gratuitos, empresas criam meios inovadores para estudar o mercado e colocam cláusulas na políticas de privacidade, permitindo que dados sejam coletados para “melhorar a experiência” do usuário, quando, na verdade, se trata de dados para anunciantes. A quem não sabe, os robôs do Google, por exemplo, leem os seus emails e podem coletar informações anônimas para promover publicidade direcionada. Não à toa, já há relato de um homem preso depois que os robôs encontraram conteúdos de pedofilia no seu email, sendo denunciado às autoridades, logo em seguida. O efeito foi positivo, mas há de confessar: o fato de terem acesso irrestrito ao email de qualquer pessoa, algo extremamente íntimo e delicado, faz a notícia ser um tanto assustadora.

Isto não se limita ao Gmail ou ao que é buscado no Google. Diversas empresas utilizam esta estratégia no dia a dia, e até se apronfundam mais. No Facebook, eles se baseiam não só no que há no seu navegador e publicações, como, também, instigam o usuário a falar mais da sua vida com recursos como o Stories e o “O que você está pensando?”, visando mais informações. O Uber, por exemplo, em uma das maiores polêmicas, estão os dados monitorados pelo seu aplicativo, mesmo quando estava fechado. É por isso que seria interessante perguntar: até que ponto há um incômodo verdadeiro na divulgação de dados pessoais, a partir do momento em que deixamos a nossa vida pública para qualquer um ver, voluntariamente?

Baseando-se na Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord, Paula Sibilia, em seu livro “O show do eu”, pode ajudar neste raciocínio. Utilizando a crítica de Debord e conversando com a Escola de Frankfurt, a autora nos apresenta como, atualmente, a construção e a valorização de um eu éxtimo está em destaque na sociedade, tanto por uma perspectiva capitalista, quanto por uma busca pela intimidade de outras pessoas para entretenimento. Entre um dos motivos que trazem essa exposição é a facilidade que temos, hoje, de colocar a cara no mundo, em especial, com recursos audiovisuais. Sendo assim, qualquer um pode gravar um vídeo, jogar na internet e garantir alguns momentos de fama, com qualquer coisa.

Parecendo um grande episódio de ficção — ou Black Mirror, como preferirem –, esta realidade já está explícita. Vivemos em busca de likes, comentários, indicações, compartilhamentos, e o que puder impulsionar, como se o capital social, debatido por Raquel Recuero, fosse o motor permanente da guerra do ópio de Debord. E há um grande incentivo para este fim: não somente um indivíduo é capaz de “lucrar socialmente”, como, também, retornamos ao anúncios. Qualquer pessoa, hoje, pode criar um blog, um canal no YouTube, o que for, criar um conteúdo valorizado pelas pessoas, e receber por isso. Basta apenas espetacularizar um pouco a sua vida, compartilhar e voilá!

Levantando essas bases, será mesmo que há uma certa preocupação na divulgação de dados ou há um desconhecimento de limites e riscos para tamanha exposição? E até onde as pessoas podem ir? Embora Stephens-Davidowitz levante que, em muitos dos casos, falemos coisas na internet onde os dados possam contradizer o emissor, a verossimilhança pode estar sempre no contexto do discurso, mesmo que em uma ficção. A maioria das histórias, criadas ou aumentadas, partem de um princípio real, o que dá até margem para o fenômeno do fake news, assunto que rende um debate exclusivo.

É nessa leva que, em muitos dos casos, estes recursos, como o do Safari 11 e de extensões como o Ghostery, sejam mais bem vistos pelos usuários avançados, do que pelo público em geral. Afinal de contas, se houvesse uma percepção geral de que os dados pessoais se tornaram um capital de troca para serviços, empresas como a Apple não se preocupariam tanto em ativar estes recursos nativamente, e, nas redes sociais, não haveria tamanha exposição, como acontece hoje.

Isto acaba sendo perigoso, afinal de contas, sequer lemos termos de privacidade, uso, licença, o que for, e passamos a usar os serviços. Porém, eles próprios têm suas culpas, ao trazerem textos longos e confusos, reduzindo a percepção do usuário aos riscos. Por isso que a mudança não deve partir apenas pelo não-uso dessas ferramentas. É preciso fazer uma certa pressão não somente para as companhias disponibilizarem de maneira simples e clara o que coletam e como usam, mas, também, serviços inovadores precisam entrar no mercado, com estas propostas, como o DuckDuckGo. Caso contrário, a cada movimento do mouse, um compartamento seu será descoberto por alguma gigante do Vale do Silício, te levando a um consumismo extremo.

Bruno De Blasi é editor da Vinte&Um e estudante de Jornalismo.

Publicado originalmente na revista Vinte&Um.