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Vinte&Um: Quantos ambulantes! Quanto desemprego!

Desde o início da crise e aumento do desemprego, a quantidade de ambulantes só veio a crescer, no Rio de Janeiro

Andando de trem em direção ao Méier, a pressa me assustava. Os ponteiros já batiam 14h50 quando eu ainda estava saindo da Central. Precisava chegar lá às 15h. Pior: ainda tinha que andar uma rua extremamente quente do verão suburbano carioca, para alcançar o meu destino. “Meu Deus, meus Deus”, pensava, embora não conseguisse focar nos meus pensamentos.

O silêncio era impossível. Se não era a senhora ao meu lado jogando Candy Crush com som – maldita seja essa revolução tecnológica, nessas horas –, era o ambulante. Ele gritava para o vagão todo ouvir:

– Senhores passageiros, desculpa interromper o silêncio da sua viagem…

E narrava um encarte do aniversário Guanabara inteiro, praticamente.

Quem não mora no Rio, explico: os ambulantes de transporte público são a síntese da mão livre do mercado. Esses caras vendem de tudo com preços extremamente competitivos. Andando de ônibus, já comprei de bala de maçã verde a espremedor de alho por R$ 2. Porém, no trem, o negócio é surreal. Colega meu, morador de Queimados, já me contou que saiu de lá com itens de pesca, no ramal Japeri. Para se ter ideia, nunca prestei atenção em lojas de pescaria, no Rio. Nunca vi uma.

Enquanto isso, eu estava apenas impressionado com o homem vendendo um cabo USB de 5m e tudo aquilo que se vende na Uruguaiana. O outro vendia bíblias lacradas – de todos os tamanhos. O que chegou depois, animou a galera: cerveja geladinha para o solarão de 40° – com direito a “fiquem tranquilos porque não vendo Itaipólvora”. Tinha para as crianças, também: picolé da Nestlé e Kibon. Todos eles. Era só escolher. Já a senhora ao meu lado, ficou impaciente:

– Já percebeu que eles, praticamente, estão brigando por clientes, vindo tudo ao mesmo tempo, com as mesmas coisas? – Me disse, após pausar o Candy Crush.

Sem resposta, voltou a jogar – com aquele barulho irritante.

Não estava enganada. Aliás, desde o início da crise, o Rio de Janeiro, uma das capitais que mais sofrem com o desemprego, teve um aumento consideravel de camelôs pelas ruas. Em março, quase apanhei de um ambulante, pois pisei, sem ver, na sua mercadoria espalhada pela calçada, na Avenida Rio Branco – imagina em Madureira. O que me salvou foi um conhecido dele, que ainda soltou um “eu te avisei”, e me pediu desculpas, em seguida.

No transporte público, isso fica ainda mais intenso. Se antes, às vezes, eu torcia para aparecer alguém vendendo M&M’s ou Kit Kat, hoje, torço para que não apareçam, em nome da paz, do sono e do sossego. Mês passado, cronometrei um percurso entre o Centro e Vila Isabel, pela Presidente Vargas, e em meia hora, cinco ambulantes embarcaram. Os cinco vendendo as mesmas coisas. Obviamente, quem ganhou foi o primeiro, o único que conseguiu alguma coisa.

O destaque vai para o metrô. Conhecido pelos seguranças que já estiveram até envolvidos em escândalos após agredir músicos, a repressão a ambulantes era intensa. Hoje, qualquer um chega lá com uma bolsa enorme e sai vendendo os seus produtos. Fato inédito, para usuários antigos do modal.

A senhora não estava errada. Quer dizer, não critico o trabalho dos caras, como ela quis fazer. Todo mundo está com problemas. Sinto falta de estabelecimentos comerciais que eu frequentava no passado, em especial, botecos de Vila Isabel, fechados pela falta de clientes e pela violência. Porém, há uma presença em excesso, ao ponto de haver calçadas sem espaço para pedestres, por conta das barracas ou panos estendidos pelo chão. Hoje, os motoristas de ônibus já negam ambulantes, dizendo “deu mole, outro já subiu”. Atitude jamais vista.

Outro problema está na segurança. No BRT Transcarioca, que liga a Barra da Tijuca ao Aeroporto Internacional, um “ambulante” se aproximou, levantou a blusa, mostrou a arma e pediu o celular. Há relatos de criminosos que estão aproveitando desse aumento para roubar ônibus. É triste demais. Muitos ambulantes, além de dependerem disso para sobreviver, são ícones. Não me esqueço até hoje do rapaz que vendia seus produtos carregando uma foto de uma Ferrari vermelha, dizendo que ia comprar uma com o nosso dinheiro, no Grajaú. Eu era criança e tem gente que se lembra dele até hoje. Isso sem se esquecer do Gordão do Trem. Todo mundo ama o Gordão do Trem.

Não é preciso explicitar dados numéricos e relatórios e econômicos para demonstrar a crise do Rio de Janeiro. Das calçadas vazias a shoppings com lojas fechadas – sou do tempo do Plano Real, cuja geração ainda não viveu uma crise, até agora –, a percepção não é difícil: a população fluminense está carecendo de ajuda, mas não de governo. Falta empregos, falta o básico, falta tudo. Falta até residência, pois o número de moradores de rua aumentou sem parar. Uma quantidade considerável tem ensino superior.

Enquanto isso, em Brasília… quer saber? Deixa para lá.

Bruno De Blasi é editor da Vinte&Um e estudante de Jornalismo.

Publicado na revista Vinte&Um, no dia 31 de julho de 2017.