em

Vinte&Um: O spa fluminense

Enquanto o Estado do Rio de Janeiro vive uma das suas piores crises, o governador do Estado do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, estava hospedado em um spa de luxo, o Rituaali, como informa a coluna do Ancelmo Gois, do jornal O Globo. De licença por questões de saúde desde domingo (16), foi encontrado em Penedo, região serrana do Rio, ao invés do hospital. O governador afirma que as despesas foram pagas com recursos próprios.

Mas, tudo bem. O Estado está em paz. É por isso que o jornal O Globo traz dados animadores, essa semana. 1.032 roubos de carga foram registrados na Avenida Brasil, de janeiro a maio. Na página seguinte, outro levantamento animador. Há relatos, nas redes sociais, de violência em 14 dos 30 dias desse mês, na Autoestrada Grajaú-Jacarepaguá. Conhecida pela tranquilidade e clima leve e fresco de uma serra, ela é uma das mais importantes ligações entre a região Central e a Zona Norte à Zona Oeste. Entre as reclamações dos frequentadores, encontram-se menções a roubos de ônibus, arrastões e tiroteios — inclusive, de quem escreve este texto.

É por isso que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), está criticando, também, a situação do estado nas redes sociais. O parlamentar afirma que “nós perdemos completamente o controle da segurança pública no Rio, ninguém consegue mais se locomover com tranquilidade”. Porém, esta não é a única figura pública a se manifestar. O vice-governador, Francisco Dornelles, e o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, entraram na lista. Para O Globo, Crivella disse:

— Existe uma crítica minha e do governador do estado. Hoje fizemos contato com o presidente da República (Michel Temer). Ele nos atendeu de maneira preocupada com a situação. E prometeu providências. Estamos todos muitos assustados.

O presidente, felizmente, ouviu.

Mas, tudo bem. O Estado está com as contas em dia. Não há falta de dinheiro, não há atraso nos salários, não há atraso nos pagamentos, repasses. Nada. É por isso que o presidente da República, Michel Temer, convocou os representantes do Estado e Município, os ministros da Justiça e Segurança Pública, da Defesa e do Gabinete de Segurança Institucional, além de representantes da equipe econômica, para uma reunião. Na pauta, estarão a situação da violência no estado, os pedidos de verbas para o Rio e a repactuação das dívidas do estado com o BNDES.

Isto porque o governo estadual, com as contas em dia e arrecadação em alta, se controlou nas obras das Olimpíadas, Copa do Mundo e exonerações fiscais e deve mais de R$ 110 bilhões a bancos públicos, instituições de esferas federais e outras mais. Desse total, R$ 7,6 bilhões são apenas do BNDES.

É por isso que há uma velha ideia rondando por aí. O BNDES está estudando comprar R$ 3,5 bilhões da CEDAE, amenizando o caos fiscal fluminense. Em entrevista ao programa Miriam Leitão, da GloboNews, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, afirma que compra da CEDAE é uma “boa hipótese”. Na coluna Direto da Fonte, do Estado de São Paulo, o espanto:

“A última foi nos anos 70, quando o BNDES foi obrigado a adquirir empresas têxteis como Dona Rosa e Dona Isabel (que acabaram fechando) e a Cia. Carioca de Sabão e Caraíba Metais, vendidas depois com prejuízo”.

Na verdade, a última vez, foi a primeira vez.

Enquanto isso, ou melhor, enquanto escrevo o texto na manhã de quinta-feira, o governador deve estar descendo a serra, se preparando para a reunião que acontecerá esta tarde. Talvez esteja arrumando as suas malas após a sua segunda visita ao spa Rituaali, que, além de custar R$ 8 mil por semana, de acordo com a The Intercept Brazil, um dos donos é Marcos Trindade, da FSB Estratégia em Comunicação. Como se sabe, a agência presta assessoria de imprensa ao governo do Estado desde o governo Sérgio Cabral, faturando R$ 118 milhões nestes últimos dez anos.

Talvez quem precise de um spa é a população do Rio. Enquanto isso, segue a alucinação do dia a dia.

Bruno De Blasi é editor da Vinte&Um e estudante de Jornalismo.

Publicado originalmente na revista Vinte&Um, no dia 2o de julho.