em Cotidiano

256 MB

Arrumando o armário, caiu um negócio no meu pé que chamou a atenção. Era um aparelho de MP3. O flashback foi certeiro: ganhei de Natal no final da minha segunda ou terceira série do fundamental – sim, na época ainda era série – com a promessa de passar de ano. Foram duas memórias: a primeira, a de que eu sempre ficava em prova final. A segunda, do quão incrível era aquele produto.

Acostumado com trambolhos de poucas funções, o primeiro contato que tive com tamanha tecnologia foi na escola. Um amigo meu chegou usando seus fones de ouvido – o que era proibido pelas freiras, na época – e puxou do bolso um negócio extremamente portátil. Ali, cerca de 10 músicas que a gente debatia sempre. Não me esqueço do diálogo:

– Dá para colocar rock aqui sem gravar um único CD – ele dizia.

Talvez, vendo com os olhos de hoje, foi ali que comecei a deixar a fissura pelos computadores de lado. Tinha um discman na época, mas aquilo não me impressionava. O MP3, sim. “Como algo tão portátil carregava 10 músicas usando apenas uma pilha?” O discman precisava de um CD e 4 pilhas, e mesmo assim, descarregava muito rápido.

Quando pedi o meu para a minha mãe, eu nem sabia o que era iPod. Só me lembro de que entrei em uma loja perto da minha casa e depois de tanto insistir, consegui levar o MP3 com 256 MB ao invés daquele de 64 MB que ela queria levar. Porém, a condição:

– Você só vai ter isso se passar de ano!

Passei, ganhei o presente. No Natal da casa dos meus avós, já com as músicas, taquei os fones nos ouvidos e comecei a ouvir as únicas dez músicas do Legião Urbana que cabiam ali. Me senti a pessoa mais incrível de todas, até acabar as pilhas depois de 4h ouvindo sem parar. Queria chorar, mas lembrei que combinei de levar o MP3 e um pacotão com 10 pilhas, na promoção. Naquela época, baterias recarregáveis eram quase um luxo.

Isto aconteceu por volta de 2003. Não demorou e eu ganhei de uma prima um pendrive, outra surpresa. Estava já maravilhado pelos 40 GB do meu HDD do computador novo e ganhei um negócio com 1 GB portátil – e o computador anterior só tinha 2 GB de HDD, com Windows 95 de fábrica. Vivia para lá e para cá com ROMs de Game Boy e como eu não tinha banda larga na época, baixava a atualização do Tibia na casa de alguém e levava comigo. Me sentia super satisfeito.

Porém, no ano seguinte, a Apple tomaria outro significado para mim. Impressionado com o iMac G3 azul do vizinho, o meu sonho era ter aquele computador – e até hoje espero tê-lo como enfeite. Quando vi que a Apple não criou só um player de MP3 portátil, mas também com 2GB, fiquei louco. Eu queria aquilo para ontem. Mas me contentei com um MP4 que o meu avô me deu, comprado na Avenida Rio Branco. Ele tinha 2GB. Enfim, alguma coisa estava mudando.

Com celulares limitados a cartões de 2GB, só fui sair desse armazenamento quando ganhei outro MP3, um da Philips, em 2009, com 4GB. Já não era mais Legião Urbana. Era Beatles. Ia e voltava da escola, caminhando pelas ruas do meu bairro, feliz da vida. Naquela época, eu podia fazer isso. Aqui não tinha assalto. Os 4GB fazem falta.

Só fui parar de me impressionar com armazenamento interno em 2010. No fim do mesmo ano, ganhei dois sonhos: um iPod Nano de 8 GB e um iPhone 3GS de 32 GB. Ambos estão comigo até hoje, como peças sagradas. Porém, o que é cômico: na época, meu computador tinha apenas 160 GB de HDD. No notebook seguinte, migrei para 500 GB e agora estou com 120 GB, no atual, mas com um HD externo de 1TB. Tudo por causa do SSD.

Gosto de relembrar isso desde que comprei o meu primeiro iPad, tentando entender o futuro dos computadores. O Monday Note e o Benedict Evans sempre me lançam esse questionamento. Afinal de contas, a própria Apple que ostenta os seus Macintoshes desde 1984, embora tenha trazido um iMac Pro na WWDC 2017, deu ênfase quase que total ao iPad Pro. Já há quem diga que o iPad ainda matará os Macs, como o iPhone matou o iPod.

Do outro lado, a gente vê os celulares como computadores principais. Há pessoas que preferem comprar celulares em vez de computadores. Já ouvi argumentos como “computador? Eu uso no trabalho e fim”, justificando a escolha. Em outras palavras, há quem considere o uso de computadores como profissional. E isto não é novidade: a mobilidade tomou conta da população mundial, e isto começou nos anos 2000, com o iPod.

É legal olhar para trás e ver que comecei com 256 MB. Hoje, cogito comprar um iPhone não com 256 MB, mas 256 GB – embora eu veja como desperdício tanto espaço assim, se nem no Mac uso 40GB. A tecnologia evoluiu e está evoluindo a cada vez mais. E isto é impossível de parar.