em Opinião

Em defesa da pesquisa científica brasileira

As bolsas do CNPq correm perigo, de novo. Com o risco de apagão fiscal, o governo está dando fim a gastos desnecessários, em prol de outros desnecessários. Nessa leva, 100 mil bolsas podem ser cortadas, este ano. De acordo com o jornal O Globo, há orçamento para pagar as bolsas até setembro. Desse mês em diante, não se sabe o que pode acontecer. Kassab diz que é bem provável que não aconteçam os cortes, relembrando o ano passado, quando a situação chegou ao mesmo nível e houve um repasse de imediato. Porém, com a queda na arrecadação, a situação de hoje pode ser pior que a do ano passado. O mistério permanece no ar.

A quem não conhece, o Governo Federal, por meio de instituições de ensino e do CNPq, paga, mensalmente, bolsas de estudo a acadêmicos. Elas funcionam da seguinte maneira: o estudante ou pesquisador participa de um projeto de pesquisa, cumprindo uma determinada carga horária, a depender de diversos fatores. Com isto, o acadêmico recebe um valor especificado em uma tabela referente à natureza do projeto, e só. Não há vale transporte, alimentação, nada. Fica nisso.

Os valores das mensalidades são selecionados de acordo com níveis de formação e encargos do projeto. Começando em R$ 100, para técnicos de nível médio, com duração de 12 meses, elas podem ir até a R$ 14.000, para pesquisas de âmbito internacional. Aos graduandos, o valor é de R$ 400 mensais para pesquisas de iniciação científica. Entre todas, há espaço para nível médio, graduação, pós-graduação e pesquisadores.

Ao observar os valores, não há absurdos, aqui, existindo até questionamentos para averiguar se tem a necessidade de aumentar ou não os valores pagos. Embora, para alguns, como parte dos estudantes de nível médio e graduação, possa servir como um dinheiro extra para auxiliar nos estudos, para níveis de pós-graduação, a bolsa chega a ser um salário fixo de uma família. Isto inclui, também, para quem vem do interior para estudar nas capitais e vive em alojamentos. Os R$ 400 fazem bastante diferença, além de estimular a pesquisa científica.

E ainda tem mais. Diversos pesquisadores dedicam cargas horárias altíssimas a pesquisas biomédicas de alta complexidade, que os impedem, às vezes, de trabalhar em empresas públicas e privadas. Para isto, eles recebem as bolsas com a finalidade de se sustentar e apoiar a pesquisa, pois, dentro desses valores, já há até a previsão de gasto com passagens, caso o pesquisador necessite. Ou seja, não é apenas uma pesquisa. É um trabalho, formal, como qualquer outro, e de grande importância.

Em um país cujo descaso com a comunidade científica vai de mal a pior, cortá-las é piorar um problema de anos. Entretanto, esta pedra já está no nosso sapato. De 2015 para 2016, os pesquisadores do Rio de Janeiro sofreram não só com o fim das bolsas da FAPERJ, como, também, com interrupções desnecessárias. Por conta de falta de pagamento à conta de luz, um supercomputador, em Petrópolis, foi desligado. Esta brincadeira resultou no atraso de pesquisas importantíssimas. Entre elas, um possível avanço médico, que beneficiaria milhões de brasileiros e outros países.

Só que a história não termina aí. Além do descaso, há uma certa aversão a estes estudos. Reações surpreendentes demonstram esta realidade com maior profundidade. Há um julgamento de que tais pesquisas são perda de tempo, inúteis, e até mesmo, um gasto desnecessário. Não há muito tempo, um conhecido compartilhou sua opinião comigo. Para ele, as bolsas de estudos servem para financiar “maconheiros metidos a intelectuais”, escrevendo textos de alta complexidade e que servem apenas para atrapalhar, trazendo o errado no lugar do certo.

Ora, se alteram a ordem social, eu não sei, mas que são benéficas de lado a lado, eu posso afirmar que sim. Muitos avanços médicos, sociológicos, e até mesmo o Plano Real, surgiram de tais pesquisas. Hoje, com a expansão tecnológica em alta velocidade, o fato de não pesquisar pode implicar em um atraso social e econômico enorme. Na UFRJ, por exemplo, no Coppe, estudos como o MagLev Cobra podem mudar não só a mobilidade urbana. Ele traz avanços científicos para que transportes de massa não gastem energia e não poluam o ambiente. Você ganha tempo, conforto e pulmões saudáveis.

É preciso defender a educação, saúde e segurança, isto é, é preciso defender as bolsas de estudo. Porém, elas precisam de certos ajustes. Há de se concordar que é necessário haver alguns ajustes, trazendo até uma seleção mais severa de que projetos serão financiados ou não – dinheiro público não é brincadeira e tem fim –, de acordo com a necessidade e a realidade. Do outro lado, o CNPq, em conjunto das universidades públicas e particulares, precisa se render mais ao mercado. Pesquisas podem ser contratadas, podem ser completamente financiadas por empresas privadas, como muitos laboratórios e hospitais fazem, hoje em dia. Isto garante a existência dos projetos e ainda retira os papers das salas de aula para a ação. O governo não pode sair bancando tudo.